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Ontem, andava ali para os lados da praça de Londres quando vi passar o Saraiva. O meu bom e velho Saraiva. Atravessei a rua a correr, quase fui atropelado por um simpático velhinho que ia tão preocupado com a sua condução que nem deu conta que ia a passar alguém na passadeira. Ao chegar ao meio do jardim chamei o meu amigo.
- Saraiva!
O Saraiva olhou para trás e continuou a andar. Atravessei e fui ter com ele. Mas não consegui surpreendê-lo.
- Ah, é você?
- Então Saraiva, há quanto tempo não nos víamos? O que é que tem feito?
- Ultimamente ando preocupado com a situação política do país…
- Você anda sempre preocupado com qualquer coisa, devia tentar relaxar…
- Relaxar, relaxar… é por causa dos relaxados que este país não anda…
- Epá, agora fez-me lembrar o Paulo Portas.
- Tem razão, peço desculpa.
O Saraiva não é de pedir desculpas, o homem deve andar mesmo preocupado.
- Então mas o que é que o apoquenta, homem?
- Depositava tanta esperança neste novo partido… o mê mê ésse…
- Então e qual é o problema?
- Vi na 2ª circular um cartaz deles e fiquei tão mal disposto, tão triste… só me apetece chorar.
- Chore isso, então!
- Hã?
- Chore lá isso, desabafe!
- Um cartaz que consegue, duma só penada, insultar o eleitor abstencionista e aconselhá-lo a não votar.
- Mas olhe que o líder desse movimento é um conceituado professor de marketing. Deve saber o que está a fazer.
- Pois eu acredito mas o cartaz acusa os abstencionistas de esconder a cabeça na areia e diz claramente: “Abs-ten-ção, MMS Não é Solução.” mais parece a palavra de ordem de uma qualquer manifestação.

Fui para casa congeminar nisto e hoje de manhã, ao passar na 2ª circular, abrandei para olhar para o cartaz… não é que o Saraiva tem razão!

mms

Como habitualmente, entrei na Mexicana para tomar o pequeno almoço e quem vi junto ao balcão? O meu amigo Saraiva. Sorumbático como sempre, trazia vestido um velho sobretudo castanho, coçado nas articulações. haverá que estudar todas as implicações filosóficas da frase anterior… quantas articulações cabem no casaco de um homem? Como se articula o pensamento filosófico dentro dum sobretudo castanho? Porque é que se continua a dizer que o pão é fresco quando na realidade ele é quente?

Ainda meio zonzo com este turbilhão de pensamentos, reparei que o Saraiva estava, distraidamente, a comprar meia dúzia de ovos enquanto lia o jornal.
- Ó saraiva… bons olhos o vejam. Então o que é que tem feito?
- Oh… nada de especial… tenho andado às voltas com uma crise existencial…
- Você Saraiva?
- … Há dias até me fui confessar…
- Então… mas você não era ateu?
- Desde pequenino… mas pelo menos, ninguém me pode acusar de não ter dado uma oportunidade à religião…

O Saraiva estava mesmo em baixo, decidi mudar de assunto. Apontei para o jornal.
- Ó Saraiva, já leu este artigo?
- Qual? O do eclipse?
- Não, este que fala do número de acidentes na 2ª circular.
- E que diz?
- Diz que em 2005 houve 364 acidentes…
- Ah… Disse o Saraiva no seu impecável Inglês, e continuei.
- Isto dá um acidente por dia… Mas não conseguia deixar de olhar para a embalagem de ovos que o Saraiva trazia na mão. Ó Saraiva, para que raio são os ovos?
- Sabe, disse ele, habituei-me a lavar a cabeça com shampoo de ovos… mas como agora já não se consegue encontrar, tive que desenvolver a minha própria fórmula…

O Saraiva é assim, apega-se a estas pequenas coisas da vida… mas, e o que é feito do shampoo de ovos?

 

(originalmente publicado em http://4olharapos.blogspot.com)

Passeava ontem ali pros lados da av. de Roma quando me cruzei com o Saraiva.
- Ó Saraiva, há tanto tempo que não o vejo, então como vai essa vida?
- Menos mal, menos mal, vou-lhe contar uma anedota.
O Saraiva não é nada dessas coisas, deve estar mesmo bem disposto, pensei. E começa.
- Um barbeiro, um careca, e um professor distraído, estão juntos numa longa viagem a pé. Ao fim do dia, acampam e decidem guardar os pertences por turnos. O barbeiro fica com o primeiro turno e, farto de estar ali sozinho, decide matar o tempo rapando a cabeça do professor distraído. Acabado o turno, o barbeiro acorda o professor para o substituir e vai-se deitar. O professor, ainda meio a dormir, passa a mão pela cabeça e diz: este barbeiro é mesmo burro, não é que em vez de me acordar acordou o careca!
- Mas ó Saraiva, essa piada tem barbas! Disse eu.
- Ah pois tem, disse o Saraiva com ar de quem acabou de comprar pão fresco, é que um investigador de Cambridge encontrou um livro de anedotas com 1700 anos, do tempo dos Romanos.
Eu que pensava que os Romanos só gostavam de raptar mulheres e construir estradas…

A quantas ando

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